Quando é que a noção das horas se perde porque alguém as transforma em dias, semanas, meses, anos fixados na memória, nas memórias, na vida, de um homem que, no acto de fazer uma simples fotografia “nele coloca todos os livros que leu, os filmes que viu, as músicas que ouviu, as pessoas que ama?

O que acontece quando, como disse Cartier-Bresson, fotógrafo, fotojornalista e desenhista francês “se coloca, na mesma linha, a cabeça, o olho e o coração?

A resposta chegou-nos, na Conversa do quintal da Isenta transformado num País. No mundo. Através do testemunho vivo e vivido de um homem que faz da magia da fotografia a história da sua vida. Da sua terra. Carlos Lousada.

Se há jornalistas angolanos, com a biografia por escrever, a de Carlos Lousada será, sem dúvida, uma das mais completas, mais intensas, mas, sem dúvida alguma, também, uma das mais singulares.

Na última sexta-feira de Abril, todos quantos se reuniram para ouvir mais uma “Conversa de Quintal” foram testemunhas do poder da oralidade enquanto veículo e repositório de uma colecção de memórias, experiências e acontecimentos que constituem a essência dos povos da nossa terra.

Foi na palavra fluida e cativante de Carlos Lousada que passamos a conhecer, com maior profundidade, a história de um dos personagens mais emblemáticos do jornalismo angolano e, através dela, uma parte importante da nossa História recente.

Conversador arrebatado e arrebatador, com gestos ilustrativos e atitude despojada, com o recurso a uma selecção, certamente reduzida, de documentos do seu imenso acervo fotográfico, foi puxando as pontas de um novelo feito de momentos, situações, acontecimentos que pontuaram a sua carreira de repórter fotográfico.

Enquanto observador e participante do processo de construção da Angola independente, testemunhou momentos indizíveis como a guerra do Kuito, com os seus contornos pérfidos, (com canibalismo na ementa) impossíveis de replicar num filme de terror. No regresso de uma reportagem sobre o estado da cidade, arriscou a própria vida para conseguir uma foto de um campo minado com uma caveira humana no primeiro plano, cujos globos oculares foram tomados por duas flores silvestres brancas. A distopia invocada pela imagem escancara a falta de limite de uma violência bruta que ocupa o vazio que fica quando as pessoas não se conseguem entender.

O seu álbum de imagens ficou marcado por experiências, muitas, umas mais violentas que outras, algumas, verdadeiras provas de resistência e, ao mesmo tempo, confirmação da capacidade de improviso e “desenrascanso”, como costuma dizer-se no calão convencional, como a que viveu, na estrada, em 2002, no regresso de uma reportagem, ao norte de Angola, integrado num grupo de jornalistas, entre as províncias do Bengo e do Uíge, que se viu impossibilitado  de continuar a viagem, devido à inexistência de estrada nos últimos 7 quilómetros entre Quincuzo e Muconda. Pela módica quantia de 330,00 kwanzas (equivalente a um (1) dólar ao câmbio da época) por pessoa, conseguiu mobilizar 40 voluntários que transportaram, aos ombros, um Toyota Hiace de 12 lugares, no quase inacreditável tempo de 5 horas.

Mas Lousada fez questão de lembrar que não viveu sozinho os tempos que guardou na memória. Lembrou antigos companheiros de luta. Falou, com particular apreço, de profissionais como Osvaldo Gonçalves, Victor Silva e António Freitas, pessoas que, com ele, testemunharam momentos determinantes da nossa História recente.

A quantos se juntaram para conversar com Carlos Lousada, a maior parte dos quais jovens jornalistas, deu para sentir o peso dos anos mais difíceis do exercício da profissão com a qual se faz notícia em Angola e que o nosso convidado fez questão de sublinhar: “vocês hoje têm uma coisa que nós não tínhamos: liberdade para falar de tudo, aproveitem”, exigiu, reforçando o imperativo para uma geração que, agora, segura as rédeas.

Mas o jornalista duro, temperado nas vicissitudes e na crueza de uma profissão de risco, o “bairrista” ferrenho, não deixou de traduzir a sua paixão pelo bairro onde reside. Deixou escapar o seu lado mais sentimental, o seu amor por Cacuaco: “de manhã peixe do mar, de tarde peixe do rio, o que um homem pode querer mais?!” questionou, à guisa de fecho, com os braços abertos sinalizando a plenitude da escolha de ser e viver em Cacuaco.

Não foi somente uma longa conversa, uma partilha de memórias vivas, muitas das quais decantadas pelo tempo e assumidas como “patentes”. Não foram apenas três horas de conversa com o tempo a passar sem se dar por isso. Foi a “fotografia” de um tempo de coragem, de sentido de dever, uma, muitas lições sobre a forma aberta e desapegada com que um jornalista deve ver e relatar o mundo.

Carlos Lousada transformou o quintal da Isenta num álbum de imagens, ilustrações de um livro quase tangível. Uma autêntica lição de vida.

Por: Maçuquina / Isenta Comunicação