CAPTAR O QUE EXISTE ATRÁS DO QUE OS OLHOS VEEM

Quando é que a noção das horas se perde porque alguém as transforma em dias, semanas, meses, anos fixados na memória, nas memórias, na vida, de um homem que, no acto de fazer uma simples fotografia “nele coloca todos os livros que leu, os filmes que viu, as músicas que ouviu, as pessoas que ama?

O que acontece quando, como disse Cartier-Bresson, fotógrafo, fotojornalista e desenhista francês “se coloca, na mesma linha, a cabeça, o olho e o coração?

A resposta chegou-nos, na Conversa do quintal da Isenta transformado num País. No mundo. Através do testemunho vivo e vivido de um homem que faz da magia da fotografia a história da sua vida. Da sua terra. Carlos Lousada. Continue reading

Ndaka Yo Wiñi, um cântico à angolanidade

Nós somos raízes, crescemos.
Não somos estrelas.
As estrelas não crescem.
Caem e perdem o brilho.

(Ndaka Yo Wiñi)

Falar sobre alguém que, durante duas horas abriu o livro ou, melhor dizendo, soltou a voz para falar de recordações, vivências, experiências, memórias e saberes, é tarefa, se não impossível, pelo menos árdua e melindrosa. Foi o que a Palavra de Ndaka Yo Wiñi, o Cantor do Povo, fez a quem esteve à conversa com ele no Quintal da Isenta.

De joelhos sobre a palha do luando, onde se cria vida e onde se nasce, fez a evocação dos antepassados, com o olhar baixado sobre a Olukwembo, a cabeça com a função de bebedouro, uma herança legada pela sua avó e que, segundo Ndaka, representa a sua ancestralidade. Foi nesta postura de respeito e reverência que se partiu para uma interacção com os presentes que jamais se rompeu até ao momento final, rematado com um cântico dedicado à natureza, ao mato, como referiu, aquele local quase místico onde tudo acontece e onde nasce a nação real, pura, um cântico que conclamava os espíritos do universo, as forças da natureza, das florestas, das matas. Dos ancestrais. Continue reading