Disse-me há dias um amigo meu, não um desses amigos virtuais que agora proliferam pelos “facebookes” ou, como eu lhes chamo, aportuguesando, (eu gosto muito de comunicar na língua com a qual me entendo com as outras pessoas) pelo “mandabocas” embora essa tradução seja tão longínqua da original como traduzir, livremente, a expressão latina “hoc opus, hic labor est” (aqui é que está o trabalho, ou a dificuldade) pela popularizada e muito mais interessante “aqui é que a porca torce o rabo” ou, pior ainda, pela que, nos meus tempos de liceu empregávamos, com aquele espírito irreverente de estudantes: “nos copos é que está o sarilho”. Mas, com esta conversa, acabei por perder o fio à meada – nada relacionado com copos, notem – e não disse o que me disse o meu amigo dos velhos tempos, também de liceu, sobre o que pensa das meias-verdades, das inverdades (quem terá inventado esta palavra?) ou das pós-verdades, termo que ele “caçou” num artigo do DN, assinado por Martim Silva, na coluna “Expresso Curto”.

Pós-verdade é pois, um adjectivo que se aplica a circunstâncias em que os factos objectivos são menos importantes na formação da opinião pública do que os apelos do foro emocional”. Ora bem, para ilustrar, jornalisticamente falando, a justeza do adjetivo/conceito/formulação/caraterização, o jornalista do Expresso, recorre ao facto de pós-verdade, expressão/palavra/adjectivo, ter sido escolhida como palavra, se não estou em erro, do ano de 2016, para caracterizar, de forma inequívoca e totalmente perceptível o seu significado. O significado e, implicitamente, o seu emprego quando se trata de… desaparecidos. Eu diria, antes, intangíveis. Ora vejamos o exemplo que, sobre isso, nos dá Martim Silva: «Há um elefante branco gigante no meio da sala. Há um elefante branco no meio da sala.
Há um elefante no meio da sala.
Há um elefante.
Há…

(Se deixarmos de falar nele, talvez ele, o elefante, desapareça).
Nem mais. Há. Um elefante. Um elefante branco. Gigante. No meio da sala. No meio. No. E… foi-se. Tal como se foi e se hão de ir, com o correr dos segundos. Minutos. Horas. Dias. Meses. Anos o problema do BES banco bom/banco mau, ou do BES Angola, da prisão do Lula da falta de água em Luanda, do lixo nas ruas angolanas, do câmbio, da carência e da carestia dos dólares, da crise do petróleo. Da corrupção. Do saneamento básico ou da falta dele. São as verdades do mundo. Do nosso e o dos outros. São as notícias/verdades que valem. Escalpelizadas. Autopsiadas. Feicebocadas. As verdades verdadeiras. Sem pleonasmos. Noticiadas. Confirmadas. Passadas. Repassadas. Televisionadas. Jornalizadas (será que o termo existe mesmo?). As verdades que já foram verdades outras. Que passaram a pós-verdades. Há um elefante… Havia.
Fui.

Por: Octáviano Correia