Nós somos raízes, crescemos.
Não somos estrelas.
As estrelas não crescem.
Caem e perdem o brilho.

(Ndaka Yo Wiñi)

Falar sobre alguém que, durante duas horas abriu o livro ou, melhor dizendo, soltou a voz para falar de recordações, vivências, experiências, memórias e saberes, é tarefa, se não impossível, pelo menos árdua e melindrosa. Foi o que a Palavra de Ndaka Yo Wiñi, o Cantor do Povo, fez a quem esteve à conversa com ele no Quintal da Isenta.

De joelhos sobre a palha do luando, onde se cria vida e onde se nasce, fez a evocação dos antepassados, com o olhar baixado sobre a Olukwembo, a cabeça com a função de bebedouro, uma herança legada pela sua avó e que, segundo Ndaka, representa a sua ancestralidade. Foi nesta postura de respeito e reverência que se partiu para uma interacção com os presentes que jamais se rompeu até ao momento final, rematado com um cântico dedicado à natureza, ao mato, como referiu, aquele local quase místico onde tudo acontece e onde nasce a nação real, pura, um cântico que conclamava os espíritos do universo, as forças da natureza, das florestas, das matas. Dos ancestrais.

Olukwembo é, igualmente, uma música composta pela avó e pela mãe do artista em 1954 e que, nas actuações ao vivo, canta com a mãe e com a qual faz a abertura de todas as suas aparições em público, cantando normalmente em Umbundu, tendo como matriz o género olondongo, as canções de roda do Sul de Angola.

A “Conversa” com Ndaka foi uma lição de angolanidade, de africanidade pontilhada por experiências, trechos de vida, lembranças, aprendizados. Uma vida de conhecimentos construídos sobre tempos diferentes, múltiplos acontecimentos, experiências vividas na raiz dos diversos povos que constituem a Nação Angolana e que cimentaram a sua personalidade, que moldaram o seu carácter, a sua idiossincrasia.

A vida, o destino, a sorte e muitas vezes as contrariedades e os revezes levaram-no a ter de mudar. De terra. De hábitos. De língua, até. Nascido em Benguela, a terra das acácias rubras e de morenas praias, percorreu as planuras do Huambo, o interior do planalto angolano, com a diversidade dos seus climas e gentes e práticas, as serranias da Huila, as dunas em constante mutação do Namibe. Vivenciou comunidades. Povos. Sociedades. Viveu País.

Ndaka Yo Wiñi deu, aos presentes, uma verdadeira lição, do sentir angolano. Da sua cultura, costumes, tradições, crenças, cerimónias. Da importância da música. Da dança. Dos ritos. Dos cultos. Pintou, com cores reais e vividas, as comunidades do mundo rural. Intocado. Lá, onde nasce e floresce, na simplicidade dos costumes, na preservação dos usos, nos gestos de cada dia, a verdade da Nação Angolana. E falou, com veneração e carinho, da sua mãe, Madalena Kassapi, que com ele sofreu momentos dolorosos de separação, mas que, ao mesmo tempo, lhe transmitiu a força, o querer para resistir e vencer, cantora e dançarina, até hoje a seu lado, que leva Ndaka a acreditar ter sido a inspiração para aquilo que viria a ser a sua personalidade de artista.
Mas também falou da guerra. Uma guerra que não era sua. Forçada, dura e cruel, para a qual foi arrastado, mas que também foi importante contributo para sua identidade. Longe da família, das suas verdadeiras origens, aprendeu a olhar o mundo com olhos diferentes, com olhos de quem mergulha numa realidade sombria, voraz e na qual se apercebeu da importância de ter de preservar as fontes, as raízes, lutando, sem fraquejos, para as conservar intactas, invioladas. Uma guerra que o levou, também, para terras de Cabinda. Uma outra realidade de consonâncias e contrastes. De agruras e comprazimentos onde adquiriu novas referências. Onde encontrou e percorreu novos cenários. Novos marcos. Novos padrões de vida. Novos protagonistas.

Ndaka Yo Wiñi interagiu e fez interatuar um público ora em silêncios atentos, ora aplaudindo, ora acompanhando, com o ritmo cadenciado de palmas as intervenções, as solicitações, os apelos. Um público interessado, preso, dominado por uma narrativa feita de forma suave, contemplativa, afetuosa, quase ternurenta,
Ndaka mergulhou, e levou os presentes a mergulhar, nas singularidades angolanas que vivem no seu íntimo, no seu mapa genético. Mergulhou fundo e, ao mesmo tempo, ensaiou voos tão altos que, certamente, perdurarão na memória e nos saberes de quem o acompanhou.

Ndaka levou os presentes no Quintal da Isenta, guiados pela mão das suas palavras quase mágicas, por uma viagem com paragens em geografias muito especiais que denomina por fontes: “a primeira fonte é o campo, o mato e caracteriza a musicalidade rural, que é o Olukwembo com o qual acompanha e marca o ritmo da sua música. A segunda fonte é a Floresta, a terceira a Montanha, a quarta o Mar, as Águas e finalmente o Universo que completa o ciclo e aglutina o percurso”.

Ndaka Yo Wiñi foi professor. Mestre. Guia. Quase um guru sempre que juntou as mãos em jeito de oração ou quando ergueu o braço e apontou rumos e caminhos. Quando fez pausas e silêncios de reflexão e expectativa. Todos ganhámos. Aprendemos. Ficamos mais ricos. Valeu a pena.