Quantos, ao cair da noite do dia 31 de Maio estiveram no Quintal da Isenta à conversa com Agnela Barros, podem ter ficado com a impressão que ali estavam presentes várias convidadas. É que Agnela Barros é uma mulher de muitas facetas. Muitas causas. Muitas vivências. Muitos saberes. Muitos que fazeres. Tantos que um dos presentes, com uma certa pitada de humor, quis saber como é que se arranja tempo e disposição para tantas ocupações. “Quem corre por gosto e compartilha por prazer não cansa” foi a resposta pronta. Mais do que uma resposta ou um chavão, uma maneira de ser.Este foi o tom de toda a conversa que, durante mais de duas horas, cativou os presentes e imprimiu marcas significativas.
Licenciada em Estudos Portugueses e Mestre em Estudos de Teatro, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professora assistente da Universidade Agostinho Neto, entre 1987 e 1997 e directora-geral do Instituto Nacional de Formação Artística (INFA), do Ministério da Cultura, entre 2003 e 2005. Co-fundadora da Associação Angolana de Teatro para a Infância e a Juventude (Assatij) e ex-presidente da Associação Angolana de Teatro (AAT), fundou, em 2017, e preside a Ubuntu – Casa de Cultura e Artes. Ligada desde a fundação ao Elinga Teatro, defensora acérrima da preservação do histórico edifício que o alberga e onde, contra tudo e contra todos, há mais de 30 anos se faz, e tenta preservar, a qualidade e a genuinidade da arte cénica em Angola. Directora Executiva da revista “Austral”, as páginas que voam diariamente nas asas dos aviões da TAAG, agraciada com a

medalha de Grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras da França, pela Embaixada da Cultura de França.
Falar com Agnela de Barros é interagir com alguém que dedica o tempo a estudar, como fez questão de frisar ao referir, com um sorriso de boa disposição, uma observação de sua neta que mostrou espanto quando descobriu que a avó ainda estudava. Porque, como mencionou, nunca deixamos de aprender. Aprender nos livros e, especialmente, aprender no convívio e com a experiência dos outros.
Sempre os outros. Talvez a faceta mais importante da nossa convidada que tem dedicado a vida a defender, a procurar formas de estar na vida ao lado de quem precisa. Ao lado de quem procura não apenas um abraço em horas mais difíceis, mas, especialmente, como fez questão de realçar, necessite de olhar e viver da forma como, melhor do que ninguém, Nelson Mandela referiu: “Respeito. Cortesia. Compartilhamento. Comunidade. Generosidade. Confiança. Desprendimento. O espírito de Ubuntu. Ubuntu não significa que as pessoas não devam cuidar de si próprias. A questão é cada um de nós fazer isso de maneira a desenvolver a sua comunidade, permitindo que ela melhore”.
Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base numa autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela, pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas. Este é o espírito que prevaleceu, certamente, na memória de quantos, durante duas proveitosas horas, ouviram e interagiram com Agnela Barros.